Uma religião inteligente, por Frei Bento Domingues, OP

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1. Para António Damásio, «não temos qualquer relato científico satisfatório quanto à origem e ao significado do Universo, ou seja, não temos uma teoria de tudo que nos diga respeito. Serve isto para recordar que os nossos esforços são modestos e hesitantes, e que devemos estar abertos e atentos quando decidimos abordar o desconhecido» [1].

Em certas formas de espiritualidade e de Teologia, a modéstia não é a regra. Na orientação espiritual, não falta quem se julgue conhecedor da vontade de Deus e com capacidade de a discernir para si e para os outros. Implorar o Espírito Santo para acolher a Sua luz é uma condição essencial para estarmos prontos a dar razão da nossa esperança, como recomenda S. Pedro (1P 3, 15-16; Rm 8, 26-27). Sem esse cuidado, seremos cegos guias de cegos. Pedir conselho é próprio de quem reconhece os seus limites. Daí a convencer-se que podemos coincidir, nas nossas opiniões, com a vontade de Deus, é presunção a mais.

Em Teologia, sempre me agradou a extrema modéstia de Tomás de Aquino. Foi discípulo de Alberto Magno, assim chamado pelo seu saber enciclopédico e pela sua curiosidade insaciável. Tomás tinha uma consciência pedagógica mais apurada. Notava que os mais novos tinham dificuldade em seguir a multiplicidade de questões no campo científico, filosófico e teológico. Comentou Aristóteles e muitos livros da Bíblia, participou em muitas questões disputadas e não receava ser exposto à curiosidade dos estudantes acerca dos temas mais variados. Resolveu elaborar um imenso guião para principiantes. Acabou por ser muito apreciado pelos investigadores. Trata-se da «Suma de Teologia».

Modesta era a sua própria ideia de Teologia. Depois de expor o seu projecto, as suas exigências, o seu método e de estabelecer os argumentos humanos que apoiam a fé na existência de Deus, ao dizer vamos tentar saber como Deus é, suspende esse atrevimento: vamos saber como Deus não é [2]. A sua Teologia é, sobretudo, uma anti-idolatria. Não atribuir a Deus e à sua vontade o que são construções nossas.

No final da vida, a partir da sua experiência mística, disse: «tudo o que escrevi me parece palha». A teologia negativa livrou-o da idolatria das concepções teológicas. Não era cepticismo. Como cantou, no seu poema para a festa do Corpo de Deus, seguiu o princípio: «atreve-te quanto puderes». Não tinha o culto da humildade ignorante, nem se contentava com repetir um credo ortodoxo. Escreveu: «é necessário que aqueles que buscam as raízes da verdade se apoiem em razões e se esforcem por saber como é verdade aquilo que afirmam. De outro modo, se o mestre se contenta com resolver a questão com o recurso a autoridades, poderá assegurar, sem dúvida, ao ouvinte, o que está certo na fé, mas este não adquire ciência nem compreensão e ficará de cabeça vazia» [3].

A Teologia cristã e a verdadeira espiritualidade são fruto da mente e do coração no interior da dinâmica da fé teologal, cujo termo não são os artigos da fé, mas o infinito mistério de Deus amado e conhecido. A oração faz parte da investigação teológica, como mostrou Sto. Anselmo, na perspectiva de Sto. Agostinho: «Não procuro, Senhor, penetrar na Tua profundidade... Mas quero compreender, ainda que seja um pouco, a Tua verdade que o meu coração crê e ama. Não procuro compreender para crer, mas creio para compreender, pois, bem sei, se não creio, não compreenderei» [4].

Nunca podemos prescindir do conhecimento científico nem do questionamento filosófico. Se não virmos que, pelo lado de Jesus Cristo, corre a vida e o sentido último da nossa história, não poderíamos acolher a Sua graça. A graça não substitui a natureza, antes a reforça.

Uma Teologia sadia nasce e desenvolve-se dentro de uma espiritualidade aberta à acção evangelizadora. Uma prática evangelizadora exige e desenvolve uma vida e uma Teologia mística. Karl Rahner insurgiu-se, com razão, contra uma Teologia kerigmática que desprezava a investigação científica [5]. Uma Teologia pastoral sem investigação é um engano. Uma Teologia que pretende ser científica e não cheira a povo perde-se no vazio, como diz o Papa Francisco.

2. Não podemos crer sem interpretar. Edward Schillebeeckx, depois de todos os embates que teve com o Vaticano, mostrou que tinham interpretações diferentes das mediações humanas da fé. Elaborou, por isso, os pressupostos e a ciência da interpretação. Parte da experiência da fé na Bíblia, não como uma Teologia da Palavra, porque a Palavra de Deus é a palavra dos seres humanos que falam de Deus.

Dizer, sem mais, que a Bíblia é a Palavra de Deus, não corresponde à verdade. Só é a Palavra de Deus indirectamente. Os escritos bíblicos são testemunhos de homens e mulheres de Deus, que viveram uma experiência e a exprimem. A sua experiência vem do Espírito e, neste sentido, pode dizer-se, com razão, que a Bíblia é inspirada, mas, ao mesmo tempo, é preciso não esquecer a mediação humana, histórica, contingente. Nunca existe encontro directo de Deus, só a sós, com o homem. Efectua-se sempre através de mediações. São os seres humanos que falam de Deus. Não aceitar mediações históricas é cair, necessariamente, no fundamentalismo 6].

3. Alegra-me que Aga Khan tenha dito que a religião ismaelita é uma religião inteligente. Tem como premissas a paz, o bem-estar, a sabedoria e o desenvolvimento [7]. Parece querer recuperar, na actualidade, o que foi uma das correntes criadoras do Islão medieval. Uma religião que não pensa, ou que só pensa o já pensado, cai inevitavelmente no fundamentalismo e na violência.

Terá sido uma iniciativa inteligente a criação de um Estado judaico? Não irá aumentar o anti-judaísmo? Não será um Estado de exclusão?

Não ficam mal, a nenhuma religião que queira ser inteligente, as observações do Papa Francisco: Uma fé que não nos põe em crise é uma fé em crise; uma fé que não nos faz crescer é uma fé que deve crescer; uma fé que não nos questiona é uma fé sobre a qual nos devemos questionar; uma fé que não nos anima é uma fé que deve ser animada; uma fé que não nos sacode é uma fé que deve ser sacudida.

Acrescenta também: existe o perigo real de deixar às gerações vindouras escombros, desertos e imundices [8].

Frei Bento Domingues, OP [1934-]
2018.07.28

Notas:
[1] Damásio, António - A estranha ordem das coisas. Lisboa: Temas e Debates, Lisboa, 2017, p. 332.
[2] S. Tomás de Aquino - S.Th., I, q.3, prólogo (cf. q. 12 e 13).
[3] S. Tomás de Aquino - Quodlibet, IV, q.9, a.3.
[4] Sto. Anselmo - Proslogion, 1.
[5] Rahner, Karl - Le courage du théologien. Paris: Cerf, 1985, p. 43.
[6] Bingemer, Maria Clara - Experiência de Deus na contemporaneidade. Lisboa: Paulinas. 2018. A autora teve em conta Karl Rahner, mas esqueceu-se de Schillebeeckx, Edward - Je suis un théologien heureux. Paris: Cerf, 1995.
[7] Khan, Aga - Entrevista in Revista do Expresso, 21.07.2018.
[8] V. L’ Osservatore Romano - «O clamor angustiado da terra». 2018.07.02.

[Fonte: Público | destaques nossos]